Mitigação da colonialidade algorítmica no Brasil.

4 Verdades Inconvenientes que a Inteligência Artificial Aprendeu Sobre Nós

O Espelho Digital que Não Mente

A Inteligência Artificial já não é uma promessa de um futuro distante; é uma força presente e ativa no nosso dia a dia. Ela molda a cultura, influencia a opinião pública e toma decisões críticas que afetam vidas humanas, desde a aprovação de um empréstimo bancário até a seleção de candidatos para uma vaga de emprego. Confiamos a esses sistemas uma quantidade cada vez maior de poder, muitas vezes sob a premissa de que a matemática é mais objetiva e neutra do que o julgamento humano.

Mas o que acontece quando essas poderosas ferramentas aprendem a partir de um mundo construído sobre séculos de desigualdades e preconceitos históricos? O que a IA nos revela sobre nós mesmos quando seu material de estudo são os dados gerados por uma sociedade com hierarquias raciais e sociais tão profundas?

Este artigo explora quatro revelações cruciais sobre essa questão. A IA não é uma ferramenta neutra agindo sobre o mundo, mas um espelho que reflete a sociedade que a criou, com todas as suas contradições e cicatrizes. E o reflexo que ela nos devolve é, muitas vezes, brutalmente honesto.

Não é “Viés”. O Nome Certo é “Colonialidade Algorítmica”.

O termo mais comum para descrever os preconceitos em sistemas de IA, “viés”, é perigosamente fraco. Ele sugere um pequeno erro técnico, um desvio que pode ser corrigido com mais dados ou um ajuste no código. A realidade, porém, é muito mais profunda e sistêmica. O conceito que realmente captura a dimensão do problema é o de Colonialidade Algorítmica.

Essa ideia reformula a questão, tirando-a do domínio exclusivo dos engenheiros e colocando-a no campo do poder e da história. Não estamos a falar de um bug, mas de uma lógica de dominação que está a ser reescrita em linguagem de programação. A tecnologia torna-se um novo veículo para uma velha estrutura de poder, herdada de séculos de eurocentrismo e opressão.

A mesma lógica de poder que há 500 anos decidia quem era humano e quem era propriedade… Essa mesma lógica agora está a ser reescrita em Python e a decidir que rosto é padrão e que rosto é erro.

Essa mudança de terminologia é crucial. Ela nos força a parar de tratar o problema como uma falha técnica e a iniciar uma conversa muito mais ampla e necessária sobre poder, história e sobre o tipo de sociedade que estamos a codificar no nosso futuro digital.

Para a IA, a Branquitude é o Padrão e o Resto é um Erro

Quando os algoritmos são treinados com dados que refletem as nossas hierarquias sociais, um padrão perigoso emerge: a branquitude torna-se a norma, o padrão de referência, o default do sistema. Esta é uma manifestação direta e prática da Colonialidade Algorítmica — a lógica que decide “que rosto é padrão e que rosto é erro”. A consequência é que tudo o que se desvia dessa norma é tratado pelo sistema não como uma variação da humanidade, mas como exceção, destruição ou ausência.

Isso se manifesta de formas concretas e danosas. Pense num sistema de reconhecimento facial que funciona perfeitamente para um rosto branco, mas falha consistentemente ao tentar identificar uma mulher negra. Ou num motor de busca que, ao ser consultado sobre “cabelo crespo”, associa o termo a palavras como “rebelde”. Esses não são incidentes isolados; são sintomas consistentes da lógica subjacente.

Não está apenas a cometer um erro técnico. Não. Está a perpetuar uma forma de apagamento.

O impacto disso é devastador. Não se trata apenas de uma falha de software que precisa de correção. É a perpetuação digital de uma forma de exclusão social que, historicamente, nega a humanidade e a visibilidade de grupos inteiros de pessoas. A máquina aprende que um tipo de pessoa é o padrão e, ao fazer isso, invisibiliza todas as outras.

O Racismo de Sempre, Agora com uma Roupa Nova e em Escala Industrial

Se a Colonialidade Algorítmica fornece a lógica, então a automação em escala industrial fornece o motor. A Inteligência Artificial não está a inventar novas formas de preconceito; está a pegar no racismo estrutural que já existe na nossa sociedade, automatizando-o e legitimando a exclusão sob um verniz de imparcialidade matemática. É, como define a fonte, “o velho racismo com roupa nova”, mas com uma diferença aterradora: a escala.

Um preconceito que na sociedade é difuso, no algoritmo torna-se uma regra matemática e é aplicada milhões de vezes por segundo.

Essa automação é devastadora precisamente porque transforma desigualdades sistêmicas em danos individuais em massa. Vejamos três exemplos que demonstram como o “velho racismo” é operacionalizado digitalmente:

• Na justiça: O sistema COMPAS, usado nos EUA para prever o risco de reincidência criminal, era quase duas vezes mais propenso a classificar incorretamente réus negros como de “alto risco”. Isto não é um erro estatístico aleatório; é a tradução digital da “criminalização seletiva”, o estereótipo racista do “super-predador” que há muito assombra o sistema judicial, agora automatizado para presumir a culpa.

• Na saúde: Um algoritmo amplamente usado em hospitais americanos para prever necessidades de saúde subestimou sistematicamente a gravidade das condições de pacientes negros. A razão? Ele usava “gastos com saúde” como um indicador de necessidade, uma lógica falha que automatiza a negligência sistêmica. Como pessoas negras têm historicamente menos acesso a cuidados e menor renda, o sistema cometeu um erro brutal: concluiu que “se gastam menos, precisam menos”, reduzindo em mais de 50% o número de pacientes negros identificados para receber cuidados extras.

• Na segurança: No Brasil, um levantamento revelou que 90% das prisões realizadas por meio de reconhecimento facial foram de pessoas negras. Este número não é apenas uma estatística chocante; é a confirmação matemática de uma violenta realidade social. É a codificação digital do “suspeito padrão” que define o policiamento brasileiro, transformando a vigilância racial em uma regra algorítmica.

A Solução não é um “Patch” no Código

A resposta padrão do Vale do Silício para esses problemas é quase sempre a mesma: “vamos desenvolver um algoritmo melhor para resolver isso”. A ideia é que podemos aplicar uma correção técnica, um patch, para consertar o sistema. No entanto, se o problema não está no código, mas na lógica da Colonialidade Algorítmica e nos dados que refletem uma sociedade desigual, então essa abordagem é fundamentalmente falha.

É como tentar consertar uma fundação rachada com tinta nova. Ou, em outra analogia, é como estar sempre a limpar o chão com a torneira aberta.

Tratar o racismo algorítmico como um mero problema técnico é uma “ação reativa” que trata apenas o sintoma, não a causa. A raiz da questão exige uma “mudança proativa” que vá à “origem do problema”. Até mesmo tentativas bem-intencionadas de “inclusão” técnica podem ser problemáticas. O exemplo de IAs generativas que criam imagens de vikings negros pode parecer progressista, mas é uma forma subtil de apagamento. Em vez de celebrar figuras históricas negras reais, como Mansa Musa ou a Rainha Nzinga, cria-se uma ficção que desvia a atenção da necessidade de confrontar a exclusão real.

O Que Fazemos com um Passado que Está Sendo Gravado em Pedra Digital?

A jornada por estas quatro verdades leva-nos a uma conclusão inevitável: a tecnologia não é uma força externa que age sobre a sociedade. Ela é um produto da sociedade, com todas as suas “contradições e cicatrizes”. Os algoritmos estão a aprender com o nosso passado e a projetá-lo, de forma automatizada, no nosso futuro.

Isso significa que garantir uma representação justa e equitativa na Inteligência Artificial não é um recurso “opcional” ou um item de responsabilidade social corporativa. É, na verdade, “uma condição para qualquer projeto tecnológico que se pretenda democrático”. Um sistema que, por definição, apaga ou distorce a experiência de vastos segmentos da população não pode ser considerado uma ferramenta de progresso. Ele é, inerentemente, uma ferramenta que solidifica a desigualdade.

Isso deixa-nos com a reflexão final, a pergunta mais urgente e difícil que este cenário nos impõe:

“Como é que uma sociedade corrige um passado enviesado que está a ser digitalmente gravado em pedra no nosso presente, solidificando desigualdades para as gerações futuras?”

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Rodrigo dos Santos Líder em IA, Especialista em Growth, Estratégia e Projetos. Coordenador do Núcleo de IA e Racismo – Universidade Zumbi dos Palmares


Comentários

Uma resposta para “4 Verdades Inconvenientes que a Inteligência Artificial Aprendeu Sobre Nós”

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